[Podemos ter este artigo como uma inspiração para nosso hoje e o futuro: preservar essa rica floresta, e o nosso meio ambiente. Preservando o meio ambiente, preservamos a nossa qualidade de vida também, afinal, tudo está envolvido, até o clima. Então vamos cada um fazer a nossa parte.]
Edição 47/Março de 2004 02/12/2011
De olho no futuro da Mata Atlântica
Com 7% de sua área original, cientistas discutem como manter o que restou da biodiversidade da floresta
por Virginia Morell
O Cristo Redentor eleva-se acima dos 3,3 mil hectares do Parque Nacional da Tijuca, no Rio, com uma das maiores florestas urbanas do mundo
"É sempre assim”, diz Adriano Chiarello. “A gente sabe que estão por aqui, mas não dá para vê-las.” O biólogo entorta o pescoço para trás como um mestre de ioga a fim de espiar os galhos mais altos de uma árvore, 30 metros acima de nós. Ali, em algum ponto da copa, uma fêmea de preguiça-de-coleira e seu filhote de 8 meses estão ocultos pelas folhas. Um sinal emitido por um rádio preso ao pescoço da mãe trouxe Chiarello ao pé da árvore, mas até mesmo a tecnologia tem seus limites. Agora o biólogo é obrigado a localizar os dois animais da maneira mais tradicional possível – usando os olhos.
“Se elas não se mexerem, talvez não dê para ver onde estão”, suspira ele. “Não é à toa que esses bichos são chamados de preguiça. Eles passam horas parados, sem nenhum movimento. Isto é o que fazem durante 80% ou 90% do dia: absolutamente nada.”
Chiarello esfrega os olhos e retoma a incômoda postura de ioga. “Opa, espere um pouco... Olhe ali, à direita de sua cabeça. Ela está abraçada ao galho.” Consigo ver o rosto marrom-escuro da mãe dentre a folhagem. Em seguida, ela põe o rosto sob um dos braços e, no mesmo instante, adquire a aparência de um imenso coco peludo. “Você viu isso? Como ela consegue sumir de um momento para o outro?”, pergunta Chiarello. “Levando em conta seu tamanho, as preguiças são peritas em camuflagem. E... olha, olha! Ela está se mexendo!” Para Chiarello, ver uma preguiça em movimento é um momento apoteótico de observação científica, um instante crucial que traz a promessa de novos conhecimentos.
O bebê de preguiça-de-coleira, que mais parece um dos Teletubbies vestido com casaco de pele, emerge então dos braços da mãe. Após escalar a parte superior do corpo materno, ele começa a brincar de dar tapinhas no rosto dela – que permanece impassível. “Elas nunca reagem aos filhotes”, sussurra Chiarello, acrescentando que as mães preguiças também não brincam nem se enfurecem com seus filhotes. Em vez disso, com a rapidez de uma tartaruga, ergue o braço até o galho mais próximo e começa a mordiscar folhas.
As duas se movem como equilibristas sonâmbulas até a ponta do galho, em busca de brotos mais macios e folhas mais novas. O mais incrível, considerando os 5 quilos e pouco que pesa a mãe, é o modo como ela e o filhote conseguem ficar dependurados em ramos tão finos quanto um lápis.
“Prima-dona”, como foi carinhosamente batizada pelo biólogo, é a estrela de sua pesquisa sobre os mamíferos ameaçados que vivem na Estação Biológica do São Lourenço, no Espírito Santo, uma pequena área de floresta nativa que ainda resta no centro da mata Atlântica brasileira. Tal como outros mamíferos, a preguiça-de-coleira vem perdendo trechos de seu hábitat desde o desembarque dos primeiros marinheiros portugueses, em abril de 1500. Naquela época, estima-se que a mata Atlântica se estendesse por cerca de 1,4 milhão de quilômetros quadrados – um quinto da área da floresta Amazônica, distante 800 quilômetros a noroeste. A mata acompanhava o litoral do Nordeste até a divisa com o Uruguai. Em alguns trechos, chegava a avançar 500 quilômetros pelo interior, abrigando os mais diversos tipos de hábitat, desde densos manguezais na costa até maciços montanhosos com mais de 900 metros de altura, recobertos de coníferas e árvores perenes de folhas largas.
Dando o tom do que viria a seguir, um dos primeiros atos dos portugueses foi derrubar uma árvore. De seu tronco fizeram uma cruz, sob a qual celebraram uma missa, reivindicando a terra e a floresta para a glória de seu Deus e de seu soberano. Ao longo dos 500 anos seguintes, muitas outras árvores foram abatidas e a floresta deu lugar a cidades e a zonas de cultivo de cana-de-açúcar, café, cacau e eucaliptos – todas espécies trazidas de fora. Hoje, cerca de 70% da população brasileira vive na área antes recoberta pela mata Atlântica, com a maioria dessas pessoas concentrada em duas das três maiores cidades da América do Sul: São Paulo e Rio de Janeiro.
Diante dessa história de destruição, não surpreende que hoje restem apenas 7% da floresta original, a maior parte concentrada em áreas isoladas, algumas com menos de 25 mil metros quadrados. Entre os hotspots globais – regiões ameaçadas que apresentam a maior quantidade de espécies endêmicas e que não se encontram em nenhum outro local do planeta –, a mata Atlântica está no grupo dos cinco dotados de maior diversidade biológica.
Mesmo nos limites dessas áreas fragmentadas, muitas espécies endêmicas conseguiram sobreviver à devastação – caso da preguiça-de-coleira. Assim como outros mamíferos dispersos por essas ilhas de floresta em meio a um mar de agricultura e crescimento urbano, a preguiça parece condenada a um futuro de endogamia – e até talvez a extinção definitiva. “Acreditamos que a variabilidade genética das preguiças já sofreu uma redução”, diz Chiarello. “No passado, essa população estava em contato com outras que vivem nas florestas próximas ao Rio de Janeiro [cerca de 400 quilômetros ao sul]. Mas elas já estão separadas há mais de um século.”
Para determinar a taxa de endogamia nos dois grupos, o assistente de Chiarello está iniciando um estudo de seu genótipo. “Talvez seja necessário realocar algumas preguiças para reforçar sua viabilidade”, diz Chiarello. “Mas antes precisamos saber mais sobre elas – quais árvores preferem e de quanta floresta precisam, sobretudo mata cerrada, para sobreviver. Já sabemos, por exemplo, que não conseguem sobreviver na borda da mata.”
Estudar as peculiaridades das preguiças é apenas uma parte das preocupações de Chiarello. Como outros biólogos conservacionistas que pesquisam a mata Atlântica, ele tem em vista um objetivo mais grandioso: interligar de novo o maior número possível de áreas isoladas da floresta.
A criação dos chamados “corredores de vegetação” poderia impedir a extinção de muitas das espécies remanescentes. Constituindo uma passagem segura entre as ilhas de floresta, tais corredores permitiriam que populações isoladas de animais e aves se encontrassem e se misturassem. Essa é uma idéia que vem sendo considerada desde a década de 1960. Embora não haja certeza absoluta de que os corredores assegurem a sobrevivência de uma espécie, eles estão sendo abertos em várias partes do mundo. “Em termos intuitivos, o benefício trazido pelos corredores faz sentido”, diz Hugh Safford, especialista em ecologia da Universidade da Califórnia, em Davis.
No Brasil, o objetivo é criar um corredor que ligue trechos isolados de floresta ao longo de 800 quilômetros do litoral sudeste do país, incluindo florestas secundárias e áreas hoje dedicadas à agricultura. Embora as árvores nativas sejam preferíveis, qualquer cobertura vegetal pode ser incorporada a um corredor. “Os animais usam os cafezais e as plantações de eucalipto para se deslocar entre trechos de mata nativa”, diz Marcelo Passamani, biólogo especialista em mamíferos. Os conservacionistas querem que fazendeiros e pecuaristas mantenham as áreas de vegetação já existentes e as interliguem por meio de corredores replantados com espécies nativas. Mas será de fato possível recriar uma floresta tropical?
“Teoricamente, sim”, comenta Rejan R. Guedes-Bruni, ecólogo vinculado ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro e consultor do Projeto Corredor das Montanhas ao Mar. “Não é tarde demais, e por isso temos a obrigação de tentar.”
Para se ter uma idéia do que já se perdeu de mata Atlântica, basta examinar um mapa da região (páginas 40-41). A floresta é indicada por manchas verde-escuras em meio aos verdes e marrons mais claros, referentes às áreas de cultivo, e também aos trechos avermelhados, que representam áreas urbanizadas.
No sul do Brasil, ao longo do litoral onde a mata se encontra mais preservada, os mapas costumam mostrar uma larga faixa verde-escura. Em torno do Rio de Janeiro e na Bahia, porém, surgem extensões de verde mais claro, azul-violáceo, bege e vermelho. Em muitas áreas dos mapas, restam apenas pontinhos do verde mais intenso.
Em um desses pontinhos, a cerca de 160 quilômetros da cidade do Rio de Janeiro, junto-me a Marina Lapenta, bióloga especialista em vida selvagem do Projeto Mico-Leão-Dourado. Juntamente com seu assistente, ela irá observar um bando de micos nos quais foram instalados emissores de rádio. O pontinho, a Reserva Biológica do Poço das Antas, estende-se por cerca de 5 mil hectares, metade dos quais com mata. O resto também será reflorestado se depender da vontade dos pesquisadores. Já há planos para interligar a reserva aos trechos de mata em fazendas vizinhas por meio de corredores – duplicando o tamanho do hábitat dos micos-leões-dourados.
“Tudo isso é mata secundária”, diz Marina, enquanto abrimos caminho através de um labirinto de cipós, palmeiras espinhosas e árvores altas e esguias com folhas largas – as espécies que costumam medrar após o corte de uma floresta primária. “Isso é o máximo que se encontra em locais tão próximos do Rio. Mas os micos adoram esta mata. Como ela é mais aberta, aqui encontram muitos insetos que servem de alimento.” Seu assistente, Jadir Ramos, gira a antena do receptor de rádio, tentando captar sinais de micos. “Estão vindo nesta direção”, diz ele.
E, como previsto, de repente o ar fica repleto dos assobios agudos dos pequenos primatas. Ao notar nossa presença, emitem um grito de alerta e saltam para galhos mais altos com tal rapidez que parecem gatos voadores. “Eles acabam se acostumando conosco”, diz Marina. “Mas estão nervosos, pois há outro grupo de micos vindo para cá. E talvez tenham de lutar contra eles.”
Quando ouvimos ao longe os assobios e guinchos produzidos pelo outro bando, os micos também se voltam àquela direção. O macho mais velho salta para uma palmeira vizinha, preparando-se para enfrentar o grupo que se aproxima. “Essa também é uma ocasião em que as fêmeas encontram novos parceiros”, diz Marina. “Às vezes, um macho e uma fêmea decidem ficar juntos e saem para formar um novo bando.”
Nem o amor nem a guerra, todavia, ocorrem nessa manhã. Os machos mais velhos de ambos os grupos se encaram por algum tempo do alto de duas palmeiras próximas e depois retomam a busca de comida, catando insetos suculentos sob a fibra das folhas. Os micos estão tão à vontade nesse cenário que quase me esqueço de que todos esses animais – tão ocupados em caçar, guinchar e socializar – poderiam nem mais estar ali. Eles chegaram tão perto da extinção há 40 anos que sua presença atual tem algo de milagre.
Na década de 1960, havia apenas 150 indivíduos dispersos pela floresta. O hábitat dos micos tinha sido retalhado e os agricultores locais continuavam a caçar os sobreviventes. “Então, há 17 anos, foi criado o projeto”, conta Denise Rambaldi, diretora do Mico-Leão-Dourado. “E um ano atrás celebramos o milésimo nascimento, sempre fora de cativeiro, de um mico.”
Os animais foram criados em vários zoológicos nos Estados Unidos e Europa, ensinados a encontrar alimentos na mata e, em seguida, transferidos para a reserva. Um número cada vez maior de primatas é levado das fazendas próximas para a segurança da reserva. A caça foi proibida e os transgressores, perseguidos. Criaram-se nas escolas programas de educação ambiental com tal êxito que hoje os moradores locais perguntam com orgulho se vimos os micos-leões-dourados “deles”. Os agricultores receberam incentivos financeiros para preservar os trechos de mata e os micos existentes em suas propriedades. Ao mesmo tempo, teve início o reflorestamento da reserva.
“A floresta cresce naturalmente. Tudo o que fazemos é dar uma mãozinha”, ressalta Luiz Fernando Duarte de Moraes, especialista em recuperação ecológica. Guiada por ele, visito um recente corredor florestal com área aproximada de 4 hectares. Enquanto mostra o broto de um jacarandá, ele comenta: “Não fomos nós que o plantamos. Trata-se de uma espécie rara, mas havia sementes da árvore no solo. E ela ressurgiu por conta própria”. Os micos também estão retornando. “Já estão procurando estas árvores para caçar. Pouco a pouco, vão ampliando seu hábitat.”
De fato, o êxito do Projeto Mico-Leão-Dourado é um dos motivos pelos quais os conservacionistas se concentraram nos corredores como uma idéia propícia para salvar as espécies mais ameaçadas. “Resta muito a ser feito”, diz Passamani. “Aves, plantas raras, micos, onças-pintadas, queixadas e antas, pequenos roedores...”
Até a década de 1980, poucos tinham idéia de quão singulares eram os animais e as plantas da mata Atlântica. “Antes disso, ignorávamos a floresta”, diz Guedes-Bruni. “Em parte, tínhamos a impressão de que poderíamos estudá-la a qualquer momento, pois a maioria dos brasileiros vive nas proximidades da floresta. Por outro lado, havia uma atitude negativa. As pessoas não a chamavam de mata, e sim de ‘mato’, que significa vegetação sem valor. Não passava de um terreno improdutivo a ser explorado.”
Desvalorizada dessa maneira, era inevitável a degradação da floresta. Somente ao começarem a fazer o inventário da biodiversidade remanescente, os pesquisadores notaram que o número de espécies endêmicas superava até mesmo o da Amazônia – considerando-se uma média por hectare. Por exemplo, embora a mata Atlântica seja hoje apenas uma pequena fração se comparada à Amazônia, ela abriga cerca de dois terços das espécies de mamíferos – 269, ao passo que a Amazônia tem 427. Essa percepção deu origem a um movimento ambientalista forte, com o surgimento de entidades importantes como a SOS Mata Atlântica. No início da década de 90, quando restavam cerca de 8% da floresta original, enfim o governo brasileiro publicou um decreto proibindo qualquer destruição adicional das espécies nativas da mata Atlântica.
“Nós temos algumas leis muito boas”, diz Grimaldi, do Projeto Mico-Leão-Dourado. “Os donos de terras têm de preservar 20% de mata em suas propriedades, por exemplo. Mas ninguém aplica essa legislação nem fiscaliza. É verdade que hoje já não se vêem desmatamentos em larga escala, mas as pessoas continuam cortando algumas árvores aqui, outras ali. Isto é o que está acabando com a mata – esse mordiscar constante.”
Além disso, como os agricultores ainda estão acostumados a queimar seus campos após a colheita, incêndios às vezes consomem a floresta adjacente. Em Poço das Antas, a poucos quilômetros de onde vimos os micos se alimentando na copa das árvores, um incêndio de mais de uma semana destruía árvores e arbustos na divisa da reserva com uma fazenda. “Leva tempo para mudar a maneira de pensar e agir das pessoas”, diz Guedes-Bruni. “A floresta está sendo destruída num ritmo mais rápido que o dessas mudanças.”
Há ocasiões, contudo, em que tais mudanças ocorrem de fato. No estado de Pernambuco, onde restam apenas 2% da mata Atlântica, a usina de açúcar Serra Grande é o maior defensor da preservação e do reflorestamento na região. “Nunca imaginei que encontraria uma floresta assim em Pernambuco”, diz o biólogo Marcelo Tabarelli, da Universidade Federal de Pernambuco, que vem colaborando com o pessoal da usina para a ampliação da mata. Em um dia ensolarado, ele e dois de seus alunos me levam, através de uma trilha pantanosa por um canavial, a uma floresta densa e sombreada. “Esta mata nunca foi cortada”, diz ele. “Dá para ver isso pela altura das árvores, a grossura dos cipós, a quantidade de bromélias e orquídeas.”
Ele pára aos pés de uma árvore enorme cujo tronco tem uma circunferência de mais de 3 metros. Bromélias tão grandes como pneu de caminhão esparramam-se pelos poderosos galhos e cipós grossos como sucuris gordas caem da copa altíssima. “Não duvido que esta árvore tenha pelo menos mil anos”, diz. “É surpreendente encontrar uma árvore tão antiga em qualquer parte da mata Atlântica, ainda mais aqui.”
Essa foi a primeira região do Brasil a ser colonizada e quase toda sua cobertura florestal foi derrubada para dar lugar a canaviais e pastos bem antes da chegada de algum naturalista. “Esta é a parte mais rarefeita e mais ameaçada da mata Atlântica. É como se estivéssemos em uma fronteira da ciência. Estamos sempre descobrindo novas espécies – de insetos, rãs, bromélias, árvores, arbustos, corujas”, diz Tabarelli.
De algum modo, mesmo enquanto a terra era ocupada por um infinito mar de cana-de-açúcar, essa área sobreviveu intacta. “Isso aconteceu em parte porque a usina de açúcar necessita de água para irrigar seus campos e gerar eletricidade. E a floresta é essencial para uma bacia hidrográfica saudável”, diz Tabarelli. A empresa tem cerca de 11 mil hectares plantados com cana e outros 9 mil hectares de mata.
Embora a usina tenha agido por interesse próprio, ela se orgulha da floresta que ajudou a preservar. “Quando comecei a trabalhar aqui, em 1986, havia muitas árvores, mas quase nenhuma ave ou mamífero, pois estes eram mortos por caçadores clandestinos”, diz José Bakker, gerente da usina. Por conta própria, Bakker reintroduziu capivaras da Amazônia em alguns dos trechos de mata, e planeja transferir para lá antas e queixadas, segundo um cronograma que está sendo elaborado por Tabarelli e grupos conservacionistas.
Tabarelli, por sua vez, ainda não está convencido de que os corredores sejam a melhor solução para a floresta. Com freqüência, nota ele, os corredores são estreitos demais para serem usados por animais e aves que vivem nas áreas mais profundas da mata. “Não podemos esperar para constatar se os corredores são mesmo eficazes”, diz Tabarelli. “Criamos alguns para ver no que dá. Mas creio que não há nada melhor do que ampliar o tamanho das florestas já existentes. Quando a mata é abundante e densa, sempre há uma quantidade maior de espécies.” Tabarelli pretende conseguir isso por meio do plantio de árvores em torno dos fragmentos de mata, em vez de interligá-los por corredores. Para tanto, a usina está plantando 4 mil hectares de floresta por ano.
A tragédia da mata Atlântica é que grande parte de sua biodiversidade já se perdeu. Na verdade, todas as sete espécies de aves e de mamíferos que se extinguiram recentemente no Brasil eram endêmicas da floresta. Devido à escala das perdas, há um consenso entre os conservacionistas de que será impossível recuperá-la por completo. “O que precisamos fazer com urgência é interromper a devastação, e preservar o que restou”, avalia Tabarelli. “E, sempre que possível, aumentar a área da floresta.”
“Talvez essa seja uma saída viável”, reconhece o ecologista Guedes-Bruni, que admite ser pessimista em relação a qualquer plano mais ambicioso para a mata. “Nunca diria a meus alunos que tenho dúvidas, pois estão esperançosos e essa energia juvenil pode fazer grande diferença.”
Por enquanto, estudantes e pesquisadores estão empenhados em entender o que se passa nos fragmentos da mata e, com base neles, decifrar o funcionamento da floresta. Em um desses fragmentos, caminhamos para além dos limites da mata a fim de encontrar dois estudantes que haviam colocado discos de papel em troncos de árvores. Eles aplicaram em cada disco os aromas que as diferentes espécies de orquídea usam para atrair os machos da abelha euglossina.
“Foi assim que descobrimos uma nova abelha”, comenta Evelise Locatelli. “Ela foi atraída por este cheiro.” Ela abre então um pequeno frasco e o aproxima de mim para que sinta o aroma peculiar de seu conteúdo. Recuo de imediato assim que a estranha mistura de odores – bolor, meia com chulé e cloro – atinge minhas narinas. “Minha nova abelha adora isso”, comenta ela, rindo, enquanto tapo o nariz. “Espere até vê-la. Ela é maravilhosa!”
Evelise põe um pouco mais da fragrância no disco, e logo aparece a sua mais recente descoberta. Quando a abelha avança direto rumo ao disco malcheiroso, o assistente de Evelise a captura com agilidade, usando uma rede para borboletas. Em seguida, a bióloga solta cuidadosamente da rede o macho cujo tórax pulsante exibe tons de canela e verde. “Na verdade, sua cor e seu pequeno tamanho nos indicaram que se tratava de uma espécie nova”, conta ela. “Agora o que queremos descobrir é: onde fica o hábitat destas abelhas? Até onde elas viajam? Ficam apenas no meio da floresta ou sobrevivem também em matas e corredores isolados? São tantas perguntas...”
Essas são as questões que todos os pesquisadores da mata Atlântica gostariam de ver respondidas no âmbito de suas espécies prediletas. Afinal, esse é um conhecimento essencial para quem está empenhado em recuperar e refazer o precioso conjunto da floresta.